Como proteger a autoestima de uma criança com TDAH
Existe um efeito colateral do TDAH que raramente aparece na lista de sintomas, mas que costuma ser o mais duradouro de todos: o desgaste da autoimagem.
Ele se constrói devagar, a partir de anos de correções, comparações e frases bem-intencionadas que a criança escuta como sentença sobre quem ela é.
Por que o TDAH afeta tanto a autoestima?
Porque a criança recebe um volume desproporcional de feedback negativo ao longo do dia, quase sempre sobre coisas que ela não controla voluntariamente.
Esquecer o material, não terminar a tarefa e se distrair não são escolhas, mas costumam ser tratados como falta de esforço. Quando isso se repete diariamente por anos, a criança conclui algo bem mais grave que “tenho dificuldade de atenção”: ela conclui que é incapaz.
Quais frases mais prejudicam sem que a gente perceba?
As frases que atribuem a dificuldade ao caráter da criança são as mais custosas, mesmo quando ditas com carinho.
“Se você quisesse, conseguiria” é a mais comum delas, e a mais equivocada, porque parte da premissa de que o problema é vontade. O efeito prático é ensinar à criança que ela é alguém que não quer o suficiente, e não alguém que precisa de estratégias diferentes.
- “Se você se esforçasse, conseguiria”
- “Seu irmão consegue, por que você não?”
- “Você é inteligente, só é preguiçoso”
- “Já falei isso mil vezes”
- “Presta atenção” dito de forma repetida ao longo do dia
O que funciona para proteger a autoimagem?
Funciona separar de forma explícita o comportamento da identidade, e reconhecer o esforço mesmo quando o resultado não veio.
Dizer “essa tarefa exige muito da parte que é difícil pro seu cérebro, vamos quebrar em pedaços” comunica algo bem diferente de “presta atenção”. A criança aprende que a dificuldade tem nome, causa e estratégia, e não que ela é falha.
Como equilibrar cobrança e acolhimento?
Acolher não significa abrir mão de expectativas. Significa ajustar a expectativa ao funcionamento real e manter o suporte enquanto a habilidade é construída.
Uma referência prática que ajuda bastante é observar a proporção entre o que se corrige e o que se reconhece ao longo do dia. Quando quase toda interação vira correção, o vínculo se desgasta e a criança para de tentar, o que agrava exatamente o comportamento que se queria mudar.
Referências
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
- Faraone SV, Banaschewski T, Coghill D et al.. The World Federation of ADHD International Consensus Statement. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2021.
- National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management (NG87). NICE, Reino Unido, 2019.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. Artmed, 2023.
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