Os irmãos também precisam de espaço
Quando uma criança demanda muito, a atenção da família naturalmente se concentra nela. É compreensível e, em boa medida, inevitável.
Mas os irmãos percebem essa assimetria mais cedo e com mais profundidade do que os adultos costumam supor.
O que os irmãos costumam sentir e não falar?
Culpa é o sentimento mais comum e o menos verbalizado: culpa por sentir raiva do irmão, por ter vergonha em público, por querer atenção, por estar bem enquanto o outro sofre.
Muitos assumem o papel de “filho que não dá trabalho” como uma tentativa de compensar a sobrecarga dos pais. Esse papel funciona por um tempo e costuma cobrar preço na adolescência ou na vida adulta, na forma de perfeccionismo, dificuldade de pedir ajuda ou ansiedade.
Como dar atenção sem tirar do outro filho?
A chave é previsibilidade, não quantidade. Um tempo exclusivo curto, mas garantido e não cancelável, vale mais do que promessas de compensações maiores que raramente acontecem.
Quinze minutos por dia, ou uma hora fixa por semana em que aquele filho tem você inteiramente disponível, com atividade escolhida por ele, produz efeito desproporcional ao tempo investido, precisamente porque é previsível e não compete com a demanda do irmão.
- Estabeleça um tempo exclusivo fixo e proteja-o de cancelamentos
- Permita que ele expresse raiva ou frustração sem correção moral imediata
- Não atribua a ele responsabilidades de cuidado que são dos adultos
- Explique o diagnóstico do irmão em linguagem adequada à idade dele
- Evite comparações, inclusive positivas (“você é o fácil”)
Devo pedir que ele ajude a cuidar do irmão?
Colaboração pontual e adequada à idade é saudável. Responsabilidade estruturante pelo cuidado não é.
A diferença está em quem é responsável quando algo dá errado. Pedir que fique de olho por cinco minutos é colaboração. Contar com ele para gerenciar crises, acompanhar rotinas terapêuticas ou substituir o adulto de forma recorrente transfere um peso que não é dele, e frequentemente cria ressentimento de longo prazo em relação ao irmão, que é o oposto do que a família deseja.
Referências
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada.
- Conselho Federal de Psicologia. Resoluções sobre avaliação psicológica e elaboração de documentos escritos. CFP, 2022.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação: Transtorno do Espectro do Autismo. Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento, SBP, 2019.
- Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil e Profissões Afins. Documentos e diretrizes sobre transtornos do neurodesenvolvimento. ABENEPI, 2023.
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